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sexta-feira, 15 de julho de 2016

Como se vence um sprint



O gigante alemão Marcel Kittel venceu a etapa 2 do Giro d'Italia deste ano, num sprint perfeito da equipa belga, Etixx-Quick Step. A Etixx chegou cedo à frente do pelotão e determinou o ritmo inicial. A Française des Jeux, de Arnaud Démare, chega-se à frente já dentro do quilómetro final, mas gasta muita energia para o fazer. Note-se no enorme esforço de Fabio Sabatini, o lançador da Etixx e de Kittel, depois de ser fechado pela FDJ para se posicionar novamente na frente do grupo, na melhor posição para que o seu sprinter despenda o mínimo de energia.

No final, Kittel sprinta e ninguém tem energia para ameaçar sequer o alemão. Vejam o excelente vídeo de análise deste sprint.


segunda-feira, 11 de julho de 2016

O dia de Portugal



Ontem, dia 10 de Julho, foi um dia histórico para o desporto português. De manhã, Sara Moreira conquistou o ouro e Jéssica Augusto fechou o pódio. O 12º lugar de Dulce Félix garantiu ainda a vitória por equipas.



Depois, no triplo salto feminino, Patrícia Mamona venceu a prova no sexto e último salto, a 14m58, 20cm acima do seu recorde pessoal e nacional. No 5º lugar da mesma prova terminou Susana Costa que, com 14m34, bateu também o seu recorde pessoal.




Mais tarde seria feita história no lançamento, com Tsanko Aranudov a conquistar a primeira medalha de sempre, neste tipo de provas, para o nosso país. 20m59 logo no primeiro lançamento garantiram ao português a medalha de bronze.


Portugal termina o Campeonato Europeu de Atletismo com seis medalhas, três de ouro, uma de prata e duas de bronze, no 7º lugar de entre os 32 países participantes.

Num dia incrivelmente chuvoso nos pirinéus franceses, Rui Costa conseguiu finalmente integrar uma fuga. Tom Dumoulin foi mais forte nesse grupo e cortou a meta 38 segundos antes do português, que bateu Rafal Majka no sprint pelo segundo lugar. Rui Costa é agora 48º na geral, mas o próprio já referiu que a classificação final não é o objectivo para este ano e que vai continuar a lutar pelas vitórias em etapas.


De noite foi a festa que todos conhecem. Portugal é Campeão Europeu de futebol, num dos anos mais improváveis para o ser pelas exibições no percurso até à final. Com Cristiano Ronaldo a sair lesionado bem cedo no jogo e Éder - de todos, foi o Éder! - a coroar uma óptima exibição com o golo da vitória, o caminho desta selecção dará uma boa história.









domingo, 9 de novembro de 2014

Andy Schleck abandona o ciclismo

Sempre gostei de desportistas que aparecem ainda muito novos, cheios de potencial mas com algumas falhas, sem serem autênticos monstros e papa-medalhas. O Schleck era exactamente isso. Teve o seu primeiro pódio numa grande volta (Giro) aos 21 anos e a partir daí acumulou camisolas da juventude na Volta a França. Era o meu ciclista favorito, o primeiro favorito que tive na modalidade. Em 2014, com 29 anos, decide abandonar o ciclismo, mas o seu abandono tem acontecido ao longo dos três últimos anos.



A Volta a França de 2010 foi o momento alto da sua carreira, e também para mim como adepto. O ano da "etapa da corrente" - num dos ataques que fez a Contador, na última subida, aquele ataque que parecia finalmente deixar Contador para trás, a corrente saltou-lhe, Contador contra-atacou (disse que não viu a corrente saltar) e ganhou-lhe 39 segundos nessa etapa. 39 segundos foi exactamente o tempo que separou Contador e Schleck no final, com vantagem para o Espanhol. Eventualmente a vitória foi atribuída ao Luxemburgês por controlo anti-doping positivo de Contador, mas a vitória não sabe ao mesmo e Schleck nunca a reclamou.



Parecia o início de uma grande rivalidade, mas quando se voltaram a encontrar no ano seguinte Contador (já não me lembro porquê) não estava em forma e depois disso foi Schleck que nunca voltou a estar. Esse foi o ano da mítica vitória de Schleck no Galibier, talvez a melhor de toda a década no Tour. Atacou no Izoard a 60 km do fim, desceu o Izoard, subiu todo o Galibier na frente e, mesmo quebrando ligeiramente no fim, ganhou 2 minutos e tal à concorrência. Chegou à camisola amarela pouco depois, mas a falta de ambição em algumas etapas e os problemas habituais de correr com o irmão (nunca se sabia bem quem era o chefe de fila, trabalhavam um para o outro intermitentemente, o que os fez perder tempo em várias etapas ao longo dos anos) fizeram com que à chegada do contra-relógio final não tivesse tempo suficiente para não ser ultrapassado por Cadel Evans.



Andy Schleck não voltou a terminar uma Volta a França. Quedas e lesões foram a primeira razão para o se eclipsar do ciclismo, aos poucos. Depois, o seu irmão acusou o uso de um diurético proibido, que o afastou da estrada durante 1 ano, que causou uma instbilidade enorme dentro da família Schleck, com o pai (também ciclista) a aconselhar que ambos abandonassem a carreira. Esse momento, o facto de Andy Schleck nunca mais ter corrido a um grande nível e ainda a sua ligação ao treinador Bjarne Riis (cujo historial de uso e aconselhamento de doping é conhecido) levam a grandes suspeições e teorias.

Fica-me na memória aquele rapaz fininho e simpático, que uma vez disse a um professor que não precisava de estudar porque um dia ia ganhar a Volta à França; que trepava que era uma maravilha mas que não aguentava a pressão dos contra-relógios (e também não tinha jeito para eles). Tenho pena de nunca o ter visto vencer na estrada.



terça-feira, 22 de julho de 2014

Prós e contras: etapas de paralelos

Depois de mais uma etapa duríssima em paralelos, o vencedor do ano passado Chris Froome abandona o Tour deste ano ao 5º dia na estrada. Essa é a razão para mais uma discussão aguerrida sobre se as cobblestones devem ou não fazer parte da Volta à França.






Contras:

Esta etapa foi uma carnificina. Já se sabia que ia ser dura ainda antes de se saber que ia chover. A potes. Na manhã de quarta-feira a organização anunciou a retirada de dois dos 9 troços de paralelos, que estavam completamente impossíveis de transpor. A estrada molhada e as condições dos troços de paralelos - um inferno para bicicletas - provocaram dezenas de quedas (24 ainda antes de chegarem aos paralelos). Apenas a ideia de correr nesta etapa deixou todo o pelotão apreensivo, nervoso, ainda antes de se fazerem à estrada. A pressão no Tour de France já é suficiente e acrescentar a isso os problemas dos paralelos pode ser demasiado para a saúde da corrida.

Já antes de começar o Tour se falou, mais uma vez, sobre se os paralelos pertencem ou não a provas de três semanas (por oposição às clássicas de um dia, como o Paris-Roubaix). Muitos ciclistas apostam a época inteira no Tour de France e ficar de fora por causa de uma etapa é quase cruel. No pelotão, as opiniões dividem-se: àqueles a quem a prova correu bem sentem-se entusiasmados com o feito quase heróico de "lutar contra os elementos"; a maioria resigna-se e diz que o Tour começa verdadeiramente depois desta etapa; muitos defendem que os paralelos não pertencem à Volta à França e que servem apenas para dar espectáculo aos adeptos e que acrescentar esta etapa à competição é quase deixar à sorte o resultado final.
 

Prós:

Primeiro, é necessário frisar que o Froome abandonou ainda antes de se entrar nos paralelos, fruto de duas quedas nesse dia e de uma no dia anterior (essa que lhe deu muitas dores num pulso e pode ter mesmo sido essa a razão principal para ter abandonado, adivinhando o calvário de passar os paralelos com um pulso em mau estado). A chuva terá sido, portanto, a razão pela maioria das quedas do dia e não os paralelos.

Segundo, a etapa foi verdadeiramente um espectáculo. Para um adepto a única coisa que retira o gozo de um dia na destes é se for forçado a abandonar um dos principais ciclistas. E a felicidade, o sentimento de dever cumprido - e bem cumprido - dos ciclistas a quem a etapa correu bem é mais marcante nestes dias. Os paralelos são apenas mais um tipo de etapa (juntando-se às divisões existentes entre montanha, colinas, plano e contra-relógios) e numa prova de três semanas como o Tour podemos dizer que o verdadeiro campeão terá de cruzar todos os tipos e sair vencedor no final. Caso contrário seria defensável retirar também os contra-relógios que "eliminaram" muitas vezes ciclistas como o Andy Schleck.


 
 

Veredicto:

Eu sou da opinião de que se devem manter as provas de paralelos. O facto de a etapa ter calhado à chuva, este ano, foi simplesmente azar. A etapa é espectacular e premeia a garra mesmo daqueles que não são especialistas (como aconteceu este ano com o Nibali, que ganhou 2 minutos aos principais adversários), possibilita diferentes tácticas de equipas que não acontecem noutros terrenos e, como disse antes, acaba por ser mais um obstáculo que os vencedores meritórios têm de ultrapassar para serem os reis da maior prova de ciclismo.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

10 razões para ver o Tour de France

1. O ciclismo é um dos DESPORTOS MAIS DUROS do mundo. É dos poucos desportos em que aqueles tipos que estamos a ver fazem coisas que nós não conseguimos fazer. Todos nós, melhor ou pior, mais devagar ou mais depressa, conseguimos "dar uns pontapés na bola" ou bater numa bola com a raquete. Não menorizando as coisas fantásticas que se fazem noutros desportos, mas nenhum de nós consegue atravessar os Alpes de bicicleta. A Volta à França é o apogeu do ciclismo, onde os melhores corredores enfrentam uma das mais duras provas em bicicleta.



2. OS COMENTADORES DA EUROSPORT PORTUGUESA. Há muitos outros bons comentadores nas televisões portuguesas e internacionais, mas o trio Luís Piçarra/Paulo Martins/Olivier Bonamici é o meu favorito. Se acham que acompanhar três horas de ciclismo em terreno plano é uma seca, nunca ouviram estes três a comentar uma etapa. É incrível como eles comentam uma mesma prova ao longo de três semanas e muitas, muitas horas e têm sempre alguma coisa interessante para dizer. Falam da actualidade da modalidade, da história, da estratégia de cada etapa, da forma e das declarações dos corredores, dos bastidores do ciclismo, comentam as perguntas que os espectadores vão fazendo no Twitter, fazem apostas em todas as etapas e no final há um vencedor, riem-se, contam piadas e relatam o que se passa no estúdio, o Paulo Martins manda calinadas ao ritmo de um Jorge Jesus e o Olivier Bonamici fala sobre a comida e as histórias de cada região francesa. Há entres eles uma intimidade e um à vontade incrível e que aproxima o espectador dos comentadores. Porque é que em outros comentários a coisa é tão séria, tão hirta e fria? Pode nem ser verdade, mas sinto que há mais momentos mortos nos comentários de futebol do que na Volta à França. Aprendam com eles!

3. A Volta à França é perfeita para as TARDES DE VERÃO. Isto era sobretudo verdade quando eu ainda estudava e tinha os verões livres. A prova é sempre durante o mês de Julho e a transmissão das etapas dura, mais ou menos, entre as 15 e as 18h, quando só apetecer é estar à sombra. Depois de almoço deito-me no sofá com uma bebida qualquer e fico ali naquela modorra até adormecer. A sesta dura quase sempre até aos 30-50km finais, altura em que acordo para assistir ao resto da etapa. Perfeito.



4. AS PAISAGENS DE FRANÇA. Nas alturas em que nada se passa que seja desportivamente relevante, os operadores de câmara aproveitam o facto de terem um helicóptero para filmarem os sítios por onde eles passam e destacam marcos e monumentos importantes. Acabo sempre por descobrir sítios que vale a pena visitar desta maneira. 

5. É possível que cada vez mais se substitua o carro ou os transportes públicos pela BICICLETA. Eu fiz isso. Acabo por poupar algum dinheiro e ajuda a manter a forma física. Dizerem que em Lisboa é impossível andar de bicicleta é, em parte, uma grande mentira; eu moro em Campo de Ourique que é bem lá no cimo. E se houve coisa que me deu vontade de andar mais de bicicleta foi a Volta à França. Aliás, foi depois da Volta de 2013 que decidi investir um bocadinho e comprar uma bicicleta de rodas finas em segunda mão para substituir os transportes.



6. A ETAPA DE PARALELOS. Eu sempre fui um adepto das voltas mais longas com etapas de montanha; as clássicas (e, mais especificamente, as provas de cobblestones) nunca chamaram muito por mim até que acompanhei por inteiro a etapa de paralelos numa Volta à França e percebi o quão emocionante e desgastante é correr neste terreno. A táctica e concentração são fundamentais nestas etapas, há cortes no pelotão constantes, quedas... Vale a pena ver.



7. Dentro da Volta à França há VÁRIAS COMPETIÇÕES. Como disse, eu sou um adepto da montanha e acabo por ligar mais à classificação "das bolinhas" que às outras (excepto, claro, à classificação geral), que premeia os ciclistas que passam mais vezes as montanhas na frente da etapa. Há ainda a camisola branca (classificação sub-25), verde (pontos que premeiam quem termina as etapas mais vezes na frente), classificação por equipas e a disputa dos contra-relógios. 



8. ESCOLHER UM FAVORITO. Os melhores representantes da modalidade estão aqui e no seu pico de forma. Além dos super-favoritos Froome e Contador, temos o Valverde, Rodriguez, Nibali... Não há nada como escolher um corredor e puxar por ele nas montanhas. Sempre gostei muito do Andy Schleck e nunca vivi tanto uma competição desportiva como quando ele atacou a meio de uma etapa e atravessou duas montanhas sozinho para ganhar bastante tempo para o líder (o Cadel Evans, na altura), ainda assim insuficiente para vencer o Tour. E não é preciso ser só para a Camisola Amarela, teremos sempre favoritos para a montanha, para os sprints e para os contra-relógios; a luta pelas outras classificações é quase tão emocionante como pela geral.



9. O AMBIENTE que se vive durante aquelas três semanas deve ser incrível. O número de pessoas que segue a caravana do Tour é já bastante grande, mas a atmosfera criada pelos milhares de pessoas espalhadas pelas passagens nas montanhas deve ser incrível. Além disso, passar por esta prova duríssima aproxima os atletas e as equipas técnicas e a intimidade entre eles é bonita de se ver e ajuda ao ambiente fantástico da Volta à França.



10. RUI COSTA. Actual campeão do mundo, chefe de fila de uma equipa com algum palmarés (Lampre) e a subir de forma - viu-se na volta à Suíça - são várias as razões que fazem de Rui Costa um legítimo candidato à geral. Não vamos aqui lançar os foguetes antes da festa, terá de medir forças ciclistas com mais experiência e com mais qualidade (em abstracto), mas o português vai lutar por um lugar entre os primeiros. Eu já escolhi por quem vou puxar este ano!

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Rui Costa - Tri-campeão da Volta à Suíça

A Volta à Suíça e o Critérium du Dauphiné são as duas principais competições de preparação para a rainha Volta à França. Mas ao contrário do Critérium, recheadinho de estrelas, a Volta à Suíça não era muito impressionante pelos nomes dos ciclistas presentes. Para além de Rui Costa, bi-campeão desta prova e campeão do mundo de estrada, na Suíça estavam Bauke Mollema (que chegou a ser 2º classificado do Tour de 2013, antes de adoecer) e Tony Martin, mestre das provas de contra-relógio.



Impressionante, sim, foi a maneira como Rui Costa ganhou. O à vontade com que o português venceu, já na última etapa, ao atacar o 2º e o 3º classificados da prova sem sequer se levantar da bicicleta. Confesso que não estava muito convicto da forma física do Rui neste ano, mas esta vitória conquistou-me. Antes desta última etapa, já ele tinha dado bons sinais no contra-relógio da 7ª, onde foi terceiro, à frente do lendário Fabian Cancellara e a apenas 28 segundos do Tony Martin, camisola amarela à altura.

PARA O TOUR

Pela primeira vez desde nem eu me lembro quando, temos um ciclista português que é chefe de fila de uma equipa. No ano passado, lá para o meio da prova, o Rui Costa teve de esperar pelo seu chefe de fila que estava a passar um mau bocado, caindo para fora do top 10 e acabando por terminar a prova em 27º (ainda assim foi isso que lhe deu liberdade para atacar e vencer duas etapas). Este ano isso não vai acontecer e vai ter uma equipa inteira a trabalhar para ele, uma vez que a Lampre-Mérida nem tem outros objectivos, como vencer a camisola dos spinters.

Quando acabou a etapa de hoje, um dos comentadores da Eurosport britânica perguntou ao outro: "Achas que o Rui Costa está preparado para fazer bons resultados numa prova de 3 semanas (leia-se, a Volta à França)?" O outro respondeu que sim.



TELEVISÃO PORTUGUESA

No ano passado fiquei contentíssimo quando todos os jornais desportivos puseram o Rui Costa na capa quando ele venceu a 2ª etapa no Tour, e mais ainda quando meteram o Rui Costa e o João Sousa, campeão do mundo e primeiro português a vencer um torneio ATP, respectivamente. Achei que a coisa podia mudar depois disso, talvez se criasse o ambiente certo para que adeptos e jornais se deixassem apaixonar por outros desportos.

No entanto, hoje, enquanto a Eurosport britânica passava a vitória histórica, o tri de Rui Costa na Volta à Suíça, a Eurosport portuguesa passava o campeonato europeu de Superbike. A TVI 24 transmitiu o Critérium du Dauphiné, mas não a Volta à Suíça. Claro que não acho que alguns desportos são mais importantes só porque gosto mais deles, ou que uma prova é mais importante que a outra só porque tem um português. Mas um atleta nacional com tão bons resultados é sempre um bom embaixador para cada desporto e cá quase nunca se tira o devido proveito disso. Vamos ficando com o futebol.

É verdade que os três maiores jornais desportivos mencionavam na capa do dia seguinte este feito do Rui (juntando-lhe também a vitória no mesmo dia de Tiago Machado na Volta à Eslovénia), mas como de costume esta honra acabará por ser inconsequente, sem haver um aprofundamento do desporto, das competições e dos atletas que dê seguimento às vitórias, acabando por se perder uma óptima oportunidade de dar a conhecer outros mundos que não o do futebol.